Enchentes no Paquistão e onda de calor na Rússia tiveram a mesma causa
Publicada em 01/09/2011 às 02h13m
O Globo (ciencia@oglobo.com.br)
RIO - Dois dos mais destrutivos desastres naturais do ano passado - separados por 2.414 quilômetros - estão intimamente ligados ao mesmo evento meteorológico, segundo um novo estudo da Nasa. O grande fenômeno atende por Onda de Rossby. As catástrofes que desencadeou foram o calor extremo e persistentes incêndios florestais na Rússia, assim como ventos incomuns e mudança no regime de chuvas do Paquistão.
Embora o calor russo tenha começado antes das enchentes asiáticas, ambos os eventos atingiram força máxima aproximadamente ao mesmo tempo. A conclusão veio a partir de informações obtidas por satélites da agência espacial americana, capazes de medir a temperatura da superfície do planeta, assim como a intensidade das precipitações.
A atmosfera, gasosa e transparente, pode não parecer fluida, mas é precisamente assim que esta fina camada, que envolve o planeta, se comporta. Enquanto a Terra gira em seu eixo, enormes rios de ar - chamados pelos cientistas de Ondas de Rossby - serpenteiam ao redor do globo rumo ao oeste. No centro delas formam-se correntes de jato. Tratam-se de colunas de ar que se movem rapidamente e empurram fenômenos climáticos do oeste para o leste.
Estas ondas não são uniformes. Áreas de baixa pressão normalmente se desenvolvem em suas calhas, enquanto áreas de alta pressão formam-se em seus cumes. Parcelas de ar quente dos trópicos e de ar frio dos polos giram ao redor das partes de baixa e alta pressão das ondas. Criam, assim, um sistema complexo de frentes quentes e frias, que encontram-se e interagem constantemente. As colisões entre elas produzem chuvas.
Em condições normais vistas no verão, a corrente de jato empurra uma frente climática pela Europa em quatro ou cinco dias. Algo inusitado, porém, ocorreu em julho do ano passado.
Um sistema de grande escala e estagnado - conhecido como evento Ômega - desenvolveu-se ao longo de uma crista de alta pressão sobre o oeste da Rússia. Este bloqueio dividiu a corrente de jato e desacelerou a Onda de Rossby, evitando o progresso dos sistemas climáticos normais do oeste para o leste.
Como resultado, uma grande região de alta pressão formou-se sobre a Rússia, prendendo uma massa de ar quente e seca.
O bloqueio criou um padrão de vento diferente sobre o Paquistão. Áreas de baixa pressão formaram-se na frente da Onda de Rossby, em resposta à ida do ar frio e seco para baixas latitudes.
- Com os dados de satélite da Nasa e as análises do vento, podemos ver claramente a conexão entre esses dois eventos - explica William Lau, que, junto à Kyu Myong Kim, assina o estudo, publicado no "Journal of Hydrometeorology". - Pense na atmosfera como uma membrana solta. Se você empurrar uma parte para cima, algo terá que cair para outro lugar. Se você produz uma alta em uma região, provocará uma baixa correspondente em outra área.
Floresta Amazônica é responsável por 44% das chuvas no Brasil, mostra pesquisa
Plantão | Publicada em 07/07/2011 às 10h54m
O Globo (ciencia@oglobo.com.br) Com Globo.com/ Bom Dia MT
CUIABÁ - As árvores da Floresta Amazônica são responsáveis por boa parte das chuvas em território brasileiro. Nas contas do ambientalista Gerard Moss, que atua no projeto "Rios Voadores", elas garantem 44% das chuvas de todo Brasil. A base do projeto é a cidade de Cuiabá. Por sua posição geográfica, ela é ideal para o monitoramento da umidade que desce da Floresta Amazônica.
As gotículas de árvores evaporadas acabam se deslocando por milhares de quilômetros. Por isso são chamados de rios voadores.
Em uma gota d'água são várias informações sobre o clima brasileiro. A bordo de um monomotor, Moss percorre o Brasil estudanto as correntes de ar. São elas que carregam a umidade da Floresta Amazônica.
A aeronave contém equipamentos que conseguem sugar pequenas partículas de água. Coletadas, elas passam por uma série de análises. Temperatura e umidade contam muito para essa captação. Só assim é possível descobrir a origem da chuva.
A coleta é feita uma vez ao mês. Os pesquisadores ficam de olho nas condições do tempo.
- A gente aproveita muito das condições ideias para o fenômeno Rios Voadores quando a corrente vem da Amazônia e passa por Cuiabá. A gente vai seguindo nesse rio voador - diz o pesquisador.
São essas coletas que já revelaram dados importantes. Por exemplo, a maior parte da água vem das árvores. Cada uma delas seria capaz de eliminar para a atmosfera mil litros por dia. A coleta de dados ainda não terminou, mas o pesquisador acredita que os rios voadores possam ter o maior volume de águas do mundo.
- O bem-estar das pessoas depende do que acontece na Amazônia. O desmatamento e as mudanças climáticas podem alterar esse equilíbrio que existe entre as chuvas e a umidade - diz Moss.
Catástrofes
Fenômenos climáticos extremos estão mais frequentes e a população, mais vulnerável
Plantão | Publicada em 05/06/2011 às 08h19m
Ana Lucia Azevedo
RIO - Certos anos são definidores da História. Eventos que transformam a relação da sociedade com o ambiente. E 2011 é um desses anos. A tragédia de janeiro na Região Serrana do Rio, o maior desastre natural nos mais de cinco séculos do Brasil, colocou o país no indesejado mapa das zonas de risco do planeta e evidenciou de forma indiscutível nossa vulnerabilidade às mudanças do clima.
Da Terra, o imenso oceano de ar que envolve nosso planeta, é mais misterioso do que a Lua. Mas já deu sinais claros de que esta é uma época de mudança. Especialistas dizem ser impossível, por enquanto, afirmar que o aquecimento global está por trás de eventos como as chuvas da Serra, as de abril de 2010 e 2011 no Rio, as enchentes devastadoras em São Paulo e as ressacas atípicas, como a que atingiu semana passada a orla carioca e de Niterói. Houve ainda chuvas torrenciais no Norte e no Nordeste. Certeza mesmo há duas. A primeira é que as cidades, ao alterarem profundamente rios, encostas e solos e concentrarem populações contadas na casa dos milhões, geram seu próprio clima e risco. A segunda é que, por sermos muitos, e muitas vezes em lugares de risco, nossa vulnerabilidade nunca foi tão alta aos fenômenos climáticos.
- Entramos num novo regime climático. Um regime de extremos. Nas grandes cidades, que modularam o próprio clima, ele já está em curso. A sociedade brasileira precisa se conscientizar de que chuvas e secas extremas não serão mais esporádicas. Já são rotineiras - diz Marcos Sanches, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Inpe, em Cachoeira Paulista.
A professora do Departamento de Meteorologia da UFRJ Claudine Dereczynski, especialista em chuvas, lembra que em 6 de abril de 2010 choveu mais no Rio do que as máximas registradas na Serra em janeiro. Então o que pode ter feito a diferença entre as duas catástrofes é a grande exposição ao risco nos vales e encostas da Serra, numa região com o solo já saturado por dias de chuva contínua.
- Nos últimos 30 anos, dobrou em São Paulo a frequência de chuvas violentas. A intensidade dos fenômenos climáticos extremos aumentou. Mas o aumento da vulnerabilidade da população é muito maior - afirma o chefe do CCST, José Marengo
Há 15 anos, a cidade de São Paulo parava devido a grandes alagamentos uma vez por ano. Agora isso é rotina, observa Marcos Sanches.
Claudine acrescenta que as medições de estações no Alto da Boa Vista e em Santa Cruz indicam elevações no volume de chuvas e no aumento da temperatura, principalmente das mínimas. Isso significa que o calor dura todo o dia. Não há alívio. E não é só no verão. As pessoas costumam temer as chuvas da estação. Mas abril é um mês que reúne uma combinação explosiva de calor de verão com frentes frias, típicas do inverno.
- Não é surpresa que o Rio de Janeiro tenha sido castigado em dois anos seguidos por violentas chuvas de abril (6 de abril de 2010 e 25 de abril de 2011). Essas chuvas tendem a se tornar mais frequentes - explica Marcelo Seluchi, pesquisador do Centro de Precisão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (CPTEC).
Há dois componentes para o aumento dos desastres naturais no Brasil. Um é humano. Há mais gente, e é maior a população em áreas de risco. O outro é atmosférico. As cidades formam ilhas de calor, com um microclima mais instável.
- A diferença de temperatura (a mínima, principalmente) entre o Centro do Rio e a periferia pode chegar a 4 graus Celsius. Em São Paulo, isso também ocorre. É o fenômeno da ilha de calor - diz Seluchi.
Gilvan Sampaio, do CCST/Inpe, destaca que, nos últimos cinco anos, têm sido observadas mudanças na distribuição das chuvas ao longo do ano:
- Chove o mesmo volume no total, mas ele é mal distribuído. O resultado são tempestades violentas.
Para Seluchi, é um fato concreto que a temperatura do planeta está em elevação:
- Têm aparecido fenômenos que antes não conhecíamos em determinadas regiões.
Especialista em tempestades, o meteorologista Ernani Nascimento, da Universidade Federal de Santa Maria, frisa:
- É indiscutível que os desastres estão mais frequentes, mas isso acontece porque estamos mais vulneráveis.
Nascimento chama a atenção para o fato de, nos últimos anos, terem sido registrados no Atlântico, junto à costa do Brasil, fenômenos com características de ciclone tropical, como furacões. O mais famoso deles foi o Catarina, em 2004, classificado como o primeiro furacão brasileiro. Mas antes dele, no mesmo ano, um fenômeno semelhante se formou junto à costa da Bahia. Foram registrados ainda o Anita (no Rio Grande do Sul, em 2010) e o Arani (em março de 2011, entre o sul do Espírito Santo e o norte do Rio). Estes, felizmente, não chegaram à terra.
- Não sabemos se eles já ocorriam e só agora são registrados, graças à melhora na tecnologia. Ou se são fenômenos novos. Sempre tivemos ciclones extratropicais. Mas ciclones tropicais têm ventos mais fortes e características diferentes e não existiam nessa parte do Atlântico - pondera Nascimento.
Seluchi diz que são grandes as incertezas, num mundo em transformação:
- Será que o Brasil um dia será afetado por furacões? Não sabemos ainda. Mas a população precisa estar preparada para eventos extremos.
SÃO PAULO - Cientistas usam tecnologia avançada para avaliar e prever as mudanças climáticas. Assim tentam minimizar seus efeitos no futuro.
Queimadas na Rússia, enchentes no Paquistão. Aqui no Brasil, a lembrança das chuvas torrenciais do início do ano no Rio de Janeiro e em São Paulo. A ocorrência de fenômenos extremos só tende a aumentar. Segundo a NASA, 2010 teve até agora os primeiros nove meses mais quentes da história (entre janeiro e setembro). O que sofremos hoje é consequência de fatores como o aumento da poluição e da queima de combustíveis fósseis das últimas décadas. Para diminuir os efeitos das mudanças climáticas futuras, é preciso agir rápido. E a tecnologia é fundamental para mensurar e minimizar os efeitos do aquecimento global.
O Brasil tem boas novidades nas iniciativas tecnológicas para prever o avanço das mudanças climáticas. No dia 5 de outubro, um supercomputador de 30 528 processadores foi descarregado de caminhões no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo. Apelidada de Cray XT6, a máquina foi fabricada nos Estados Unidos e vai colocar o CPTEC entre os cinco maiores centros de climatologia do mundo em capacidade de processamento. Luiz Augusto Machado, coordenador do centro, não esconde a alegria. “A máquina roda nossos modelos de previsão global 50 vezes mais rápido que a anterior”, diz. Para saber como o clima estará em 100 anos, é preciso guardar arquivos com dados meteorológicos diariamente.
A máquina será abastecida com informações sobre atmosfera, oceanos e outros fatores determinantes do clima, vindos de várias fontes, como satélites, estações meteorológicas e até aviões comerciais. O objetivo é gerar previsões mais acuradas sobre o clima. O computador anterior calculava informações de clima em áreas quadradas de 210 quilômetros de lado. Assim, duas cidades que estivessem na mesma região recebiam previsão igual. O CPTEC quer diminuir esse valor para 20 quilômetros e, nos próximos anos, para 10 quilômetros.
Casos como o do Cray, em que a tecnologia de ponta é usada para servir os estudos sobre o meio ambiente, deixam de ser tão raros no Brasil. O CPTEC é parte do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Ministério da Ciência e Tecnologia, que, com o Ministério do Meio Ambiente, universidades e centros de pesquisa, está se esforçando na tarefa de aumentar o volume de dados sobre o clima no país. “O avanço no conhecimento permite desenvolver políticas públicas que vão impactar na melhor preservação do ambiente e na adaptação a novas condições de temperatura”, afirma Machado.
A torre Eiffel da Amazônia
Outro projeto tecnológico nada modesto está em construção em São Sebastião do Uatumã, no interior do Amazonas. O Atto terá uma torre de 320 metros (apenas 4 metros a menos que a torre Eiffel, em Paris), rodeada por outras quatro torres de 80 metros. “O Atto será um sítio experimental de referência para o planeta”, diz Antonio Manzi, pesquisador- titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), instituição que coordena o projeto no Brasil, com a Universidade do Estado do Amazonas e o Instituto Max Planck de Química, da Alemanha. As torres terão vários andares cobertos de sensores para medir concentração de gás carbônico, vapor de água, temperatura, velocidade de ventos, tamanho de gotas de chuva e partículas suspensas no ar, que contribuem para a formação de nuvens.
Por seu tamanho enorme, a torre principal poderá analisar materiais que viajam centenas de quilômetros pelo vento (até a areia do Saara chega lá) e ter uma boa ideia de como funciona o ecossistema amazônico. A tecnologia vai ajudar os cientistas a diminuir a incerteza sobre o clima. “Mesmo as pesquisas de ponta sobre a Amazônia apontam resultados diferentes. Há quem diga que no futuro vai chover muito e quem fale que haverá seca”, afirma. As informações coletadas pelo Atto serão transmitidas em tempo real para o Inpa, onde cientistas poderão usá-las em estudos. O projeto deve ficar pronto no final de 2011 e vai operar por até 30 anos.
Embora tenha uma grande extensão territorial, a Amazônia é uma das regiões com maior concentração de pesquisas ambientais no planeta. Mas isso não se repete no resto do país. O pesquisador Eduardo Assad, que estuda os impactos do aquecimento na agricultura na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), afirma que embora haja dados gerais de satélites para todo o país, algumas áreas carecem de informações locais. “Há um buraco grande na rede de observação de estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, que detêm 40% da produção agrícola”, diz. Segundo ele, o Brasil tem pouco mais de 1 000 estações meteorológicas, concentradas no litoral, no Sudeste, na Amazônia e em Santa Catarina.
A importância dos dados locais
Enquanto um satélite pode custar 200 milhões de dólares e dar informações sem muitos detalhes, tecnologias mais baratas podem ser usadas para a obtenção de dados precisos. O Lidar é uma delas. A tecnologia de 500 000 dólares está sendo melhorada há dez anos no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) pela equipe coordenada pelo professor Eduardo Landulfo. O Lidar emite um raio laser para a atmosfera. Lá, ele se choca com partículas poluentes e parte do raio volta para o equipamento com outro comprimento de onda. Assim, é possível obter informações sobre as partículas, como velocidade e direção. Recentemente, a técnica começou a monitorar queimadas de florestas no interior paulista. Em parceria com o Inpe e com o Centro de Capacitação e Pesquisa em Meio Ambiente da Universidade de São Paulo, a Petrobras está implantando a técnica para analisar a eficiência de sua refinaria de Cubatão, observando os gases poluentes emitidos. A técnica do Lidar também será usada no Atto, na Amazônia, e tem cada vez mais aplicações. “As medidas feitas pelo laser são um importante complemento ao satélite para efetuar medições locais”, afirma Landulfo.
Outra área cujas pesquisas exigem muita tecnologia é a do estudo dos oceanos, sobretudo por conta dos custos envolvidos e da extensão territorial. O Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), por exemplo, é forte em estudos sobre o litoral. Isso só é possível com uso de software e de um supercomputador do centro. “Eles adicionam dados específicos, como a direção do vento e das correntes marítimas, aos dados dos satélites, para chegar à escala usada em obras de engenharia”, afirma Audálio Rebelo, pesquisador da Coppe. Uma das obras em andamento é a instalação de uma usina- piloto no porto do Pecém, no Ceará. O projeto do Laboratório de Tecnologia Submarina poderá transformar a energia mecânica das ondas em energia elétrica, e começará a operar em 2011 com capacidade de 100 kW. É essa união de diversas tecnologias que pode levar o Brasil a ser um dos poucos países a projetar e se preparar para os efeitos das mudanças climáticas no futuro.
Planeta Terra
Entenda como os rios voadores comandam o tempo no Brasil
Publicada em 27/07/2010 às 08h15m
Cesar Baima
RIO - Ele tem de 200 a 300 quilômetros de largura, milhares de quilômetros de extensão, carrega um volume de água que chega a ser equivalente ao do Rio Amazonas, mas ninguém vê. Isso porque trata-se de um dos maiores "rios voadores" do mundo, uma corrente de vento, conhecida como jato de baixa altitude, que sopra entre um e três quilômetros de altura e traz umidade da Amazônia até a região centro-sul do Brasil. Esse enorme rio, porém, pode ter sua rota e o seu volume alterados pelo aquecimento global e o desmatamento, com graves consequências para a agricultura e produção de energia no país.
O maior rio voador brasileiro nasce onde os principais rios "terrestres" do país deságuam, o Oceano Atlântico. A ação do Sol sobre a região equatorial do mar evapora grande quantidade de água. Esta umidade é carregada pelos ventos alísios, que sopram de leste para oeste, para a Região Norte do Brasil. No total, são cerca de 10 trilhões de metros cúbicos de água por ano que chegam à Amazônia na forma de vapor. Parte cai como chuva, enquanto outra parte segue até encontrar a muralha da Cordilheira dos Andes. Lá, precipita como neve, que quando derreter vai alimentar os rios da Bacia Amazônica. A maior parte da chuva que cai sobre a floresta, no entanto, volta a evaporar, numa proporção que pode chegar a 75%, conta Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.
" O clima não é só atmosfera. É o oceano, o Sol, a terra, as plantas. O clima é interação "
É esta umidade que vai dar corpo ao rio voador da Amazônia, que flutua então sobre a Bolívia, o Paraguai e os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo, podendo alcançar ainda Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, levando a maior parte das chuvas para todas essas regiões.
O desmatamento da Amazônia pode secar, e muito, o rio aéreo, alerta Pedro Dias. Enquanto um metro quadrado de mar evapora um litro de água por dia, uma área equivalente da floresta perde entre oito e nove litros diários. Nesse processo, o maior rio voador brasileiro pode até dobrar de volume, atingindo uma vazão similar à do Rio Amazonas, que despeja cerca de 200 milhões de litros de água no Oceano Atlântico por segundo. Mas, segundo Dias, modelos climáticos mostram que, sem a floresta, a quantidade de chuva que cai na Amazônia diminuiria em até 30%. Além disso, sem as árvores a região perderia a capacidade de armazenar parte da umidade, o que faria com que o rio voador corresse mais depressa, provocando tempestades severas no sul do Brasil e na Bacia do Prata.
- Daí a preocupação com o impacto climático do uso da terra na Amazônia. Sem a cobertura vegetal, teríamos menos 15% a 30% das chuvas lá, com impactos semelhantes nas bacias adjacentes e aumento da frequência de eventos extremos. O clima não é só atmosfera. É o oceano, o Sol, a terra, as plantas. O clima é interação - destaca Dias.
Para melhor compreender como funciona este rio voador, sua rota e influência no clima e no regime de chuvas no Brasil e na América do Sul é que teve início, em 2007, o projeto Rios voadores. Idealizado pelo aviador e ambientalista Gerard Moss, ele conta com a participação de cientistas de diversas instituições brasileiras, entre eles Dias. Pilotando um monomotor modelo Sertanejo, da Embraer, Moss realizou, entre 2008 e o início do ano passado, 12 campanhas, nas quais recolheu mais de 500 amostras da umidade que corre no rio voador sobre o céu brasileiro, passando por cidades como Belém, Santarém, Manaus, Alta Floresta, Porto Velho, Cuiabá, Uberlândia, Londrina e Ribeirão Preto. Para tentar identificar a origem, a dinâmica e o deslocamento das massas de ar e da água, foi feito um estudo de isótopos de hidrogênio (H2, deutério) e oxigênio do vapor d'água recolhido por Moss. Estas amostras foram analisadas pelo Laboratório de Ecologia Isotópica da USP, no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), em Piracicaba. Nelas, ficou confirmado que grande parte da água do rio voador vem mesmo da Floresta Amazônica.
- Por terem propriedades físico-químicas distintas, as moléculas de água que contêm esses isótopos comportam-se diferentemente nos processos de evaporação, transpiração e condensação do vapor d'água - explica o engenheiro agrônomo Eneas Salati, diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e coordenador científico do projeto.
RIO - A Estação Espacial Nasa registrou o desprendimento de um enorme iceberg do glacial Jakobshavn Isbrae, na Groenlândia. Um bloco imenso de gelo do tamanho de 7 quilômetros quadrados começou a se separar nos dias 6 e 7 de julho, como mostram as imagens captadas pela Nasa. O fenômeno não era esperado porque ocorreu justamente depois de passado um inverno quente, mas que não gerou formação de gelo na baía do glacial. A pesquisa, coordenada por Ian Howat, do Byrd Polar Research Center, da Universidade do Estado de Ohio, e Paul Morin, diretor do 'Antarctic Geospatial Information Center, da Universidade de Minnesota, supervisionaram as imagens por satélite para controlar as mudanças na camada de gelo da Groenlândia.
- Ainda que já se tenham produzido blocos de gelo dessa magnitude, nenhum gelo foi gerado na baía após o inverno quente - explicou Thomas Wagner, cientista da Nasa. - O fenômeno reforça a teoria de que o aquecimento dos oceanos é o responsável pelo degelo observado na Groenlândia e na Antártica.
Mais de 10% de todos os icebergs que se formam na Groenlândia procedem do glacial Jakobshavn, considerado o maior "fornecedor" do aumento do nível do mar no hemisfério Norte. Os cientistas contam com imagens de vários satélites para monitorarem as mudanças nas camadas de gelo dos dois polos.
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Um ativista de peso em prol do nosso querido planeta
A REALIDADE IMITA A FICÇÃO
Gigante
Iceberg gigante se rompe da Antártica e ameaça mudar correntes marítimas
Publicada em 26/02/2010 às 15h47m
O Globo com agências internacionais RIO - Um enorme iceberg, com aproximadamente metade do tamanho de Brasília, deslocou-se do continente Antártico após colidir com outro iceberg gigante, podendo causar alterações nas correntes marítimas do planeta e no clima. O alerta foi feito por cientistas australianos, que afirmam que ele poderá bloquear uma área que produz um quarto de toda a água densa e gelada do mar. Se isso acontecer, os invernos ficarão mais frios no Atlântico Norte e os padrões de clima serão alterados ao longo dos anos.
Segundo os especialistas, os efeitos serão corrente abaixo e os pinguins e outros animais selvagens que normalmente usam esta área para alimentar-se também sofrerão o impacto.
O iceberg está flutuando em uma área de água aberta cercada de gelo do mar e conhecida como polinia.
A água gelada e densa produzida pela polinia desce para o fundo do mar e cria a água densa salgada que tem papel-chave na circulação dos oceanos ao redor do globo.
Benoit Legresy, um glaciologista francês, afirmou que o iceberg descolou-se da Geleira Mertz, uma língua de gelo saliente de 160 km na Antártica Leste, ao sul de Melbourne.
Vem ai a 15ª Conferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas das Nações Unidas. Após a polemica do All Gore, vamos ver se eles vão fazer a diferença e mostrar que os filmes catastrofes são realmente ficção cientifica.
Grupo defende manipular a Terra contra aquecimento
da Folha de S.Paulo
A viabilidade de estratégias artificiais para resfriar o planeta ainda está longe de ser bem conhecida, mas a ciência não deve abandonar de todo esses recursos no combate ao aquecimento global, diz a maior associação acadêmica da Europa. Em um relatório publicado ontem, a Royal Society pediu ao governo britânico para bancar um programa de 10 bilhões anuais a fim de resolver dúvidas sobre o uso de técnicas da chamada geoengenharia.
O termo
se refere à manipulação da atmosfera e da superfície da Terra para contrabalançar as emissões de gases do efeito estufa. São propostas como o lançamento maciço de aerossol na estratosfera terrestre para refletir o calor solar para o espaço antes que ele chegue aqui em baixo. Ou pintar de branco todos os telhados e ruas do mundo para evitar que o planeta absorva muito calor.
Arte/Folha de S.Paulo
Abarcando algumas ideias mais mirabolantes que outras, a geoengenharia é considerada um delírio tecnológico por muitos cientistas. Não sem razão. Nenhuma proposta do tipo, por enquanto, é tão viável quanto a negociação de um acordo global para cortar as emissões de CO2 -solução tecnicamente simples, ainda que politicamente complexa.
Uma coisa não exclui a outra, porém, afirma o relatório da Royal Society, produzido por uma equipe de mais de 20 cientistas de ponta liderados por John Shepherd, da Universidade de Southampton.
"Há um sério risco de as ações de mitigação não serem introduzidas suficientemente e em tempo", diz o relatório. "A menos que os esforços futuros para reduzir emissões de gases-estufa sejam muito mais bem sucedidos do que aqueles feitos até agora, ações adicionais poderão ser necessárias para resfriar a Terra neste século."
O grupo da Royal Society, porém, reconhece que as ideias para tal ainda são cruas.
"A geoengenharia do clima terrestre muito provavelmente é tecnicamente possível", continua o documento. "Contudo, a tecnologia para isso mal se formou, e há grandes incerteza a respeito de eficácia, custo e impactos ambientais."
O relatório divide as ideias vigentes em dois grupos. O primeiro consiste em técnicas para sequestrar CO2 do ar, potencializando os cortes de emissões. O segundo grupo engloba estratégias para reduzir a absorção de radiação solar.
Se a geoengenharia for necessária um dia, diz o documento, as técnicas do primeiro grupo são preferíveis, porque também ajudam a combater a acidificação dos oceanos, outro efeito nocivo do CO2. Elas seriam uma gambiarra meteorológica que não afetaria tanto o sistema climático da Terra.
Arte/Folha de S.Paulo
As técnicas do segundo grupo, porém, têm o potencial de provocar um resfriamento mais rápido da Terra, e numa situação de emergência global, poderiam ser adotadas por períodos curtos de tempo.
Muitas propostas de uso da geoengenharia, porém, também precisariam de acordos internacionais para serem adotadas, e a Royal Society diz que fatores políticos devem ser considerados nos estudos.